Quem é Rozeli da Silva*

Ela quer um nobel da paz

Ela é brasileira: é Silva. Brasileira do tipo que não desiste mesmo, e prova de que as pessoas podem muito bem traçar o próprio destino, por mais que os acontecimentos da vida insistam em demonstrar o contrário. É gari, natural de Porto Alegre, nascida no bairro Partenon, criada na Restinga. Rozeli da Silva.

O nome pode soar familiar, afinal, Rozeli já esteve em páginas de jornais e revistas, ao lado de Jô Soares e já deu até depoimento veiculado ao final da novela Viver a Vida. Porque a história dela é do tipo que dá um livro. Na verdade, já deu: Guerrilheira do Amor, um relato biográfico puro e simples, narrado pela própria e escrito pela assistente social Learsi Kelbert, porque Rozeli ainda tem dificuldade para escrever.

A mulher que hoje se senta em frente a um computador numa sala que ostenta, na porta, a placa “Presidência”, ainda conserva a humildade da criança que passou fome e morou na rua. Esta mesma criança fez Rozeli planejar e ter garra para colocar em prática o que, segundo ela, sempre foi um sonho: criar uma organização não governamental para auxiliar outros meninos e meninas que também poderiam se tornar filhos das ruas, agentes do tráfico e vítimas da violência. Foi com este espírito que, em 1998, Rozeli da Silva fundou a ONG Centro Infantil Renascer da Esperança, que hoje atende mais de 200 menores dos 3 aos 17 anos e 11 meses, além de auxiliar famílias e prestar serviços médicos para moradores da comunidade da Restinga, na zona sul de Porto Alegre.

O começo da história

Se é possível resumir a história de vida desta mulher, seguem algumas linhas: Rozeli tinha 12 irmãos. Três morreram. A mãe, que trabalhava como faxineira em um órgão do Estado, era pouco afetiva e ausente, e o padrasto, alcoólatra. Para conseguir comida para os irmãos e superar as situações difíceis, a menina criou quase que um sistema próprio de sobrevivência: era desafiadora, desconfiada e malandra, como ela própria relata. “Eu era uma trombadinha”.

A “trombadinha” saiu de casa para casar aos 11 anos. A atitude foi a forma encontrada pela menina para viver em melhores condições, o que não aconteceu. Casou duas vezes, teve quatro filhos, o primeiro aos 12 anos.

Rozeli ainda conserva as marcas das duas uniões: uma cicatriz na mão e diversas nas pernas, produto da violência do primeiro marido. Do segundo, restou uma cicatriz na face, próximo à sobrancelha, resultado de uma agressão quando Rozeli tomou a decisão e comunicou que colocaria em prática o desejo de fundar uma ONG.

Renascendo

Analfabeta, porque nunca foi incentivada pela família a frequentar uma escola, Rozeli tornou-se gari em Porto Alegre. Foi desse modo que passou a reviver os acontecimentos da própria infância: enquanto varria as ruas do centro da cidade, assistia à luta diária pela sobrevivência de crianças que saíam de casa para pedir dinheiro ou comida, e dormiam debaixo dos viadutos e marquises. Como não agradava ser apenas espectadora dos fatos, Rozeli levava comida para os meninos quando podia; caso contrário, pedia um cachorro-quente para um vendedor e dava para as crianças. “Eu me via neles, e percebi que não fui só eu que passei por essas dificuldades”, conta. A vontade de cuidar dos meninos cresceu.

O desejo foi manifestado às colegas no Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre (DMLU), que, zombeteiras, não pensavam que o sonho se concretizaria. Ainda sem saber escrever, Rozeli contou com a ajuda da assistente social do DMLU Learsi Kelbert. “Ela era meu lápis, porque eu não sabia escrever, mas eu sabia pensar. Em 1996 nós colocamos tudo no papel. Em 1998 conseguimos fundar o Centro Infantil Renascer da Esperança”.

Trajetória de lutas

O desenvolvimento do projeto sempre foi um desafio: conseguir a sede, que primeiramente foi localizada na Associação dos Moradores da 3ª Unidade da Restinga, além de obter dinheiro e comida.

Após se separar do segundo marido, que não aceitou o envolvimento de Rozeli com o projeto, ela vendeu a casa e investiu todo o dinheiro na ONG. Convocou voluntários da própria comunidade, que se revezavam para cuidar das crianças, dar aulas de capoeira, acompanhamento pedagógico, preparar o lanche, etc.

Muitas vezes (o que ainda ocorre nos dias de hoje) Rozeli utilizou o próprio salário para comprar alimento para as crianças. Começou recebendo, diariamente, 80 meninos e meninas, que permaneciam no Renascer no turno inverso ao da escola. O atendimento era até os 14 anos. “Mas eu percebi que estava alimentando leões”, diz Rozeli, “porque esses adolescentes não tinham qualquer perspectiva de vida depois dessa idade a não ser o envolvimento com o tráfico. Eu sabia que, se continuasse assim, mais cedo ou mais tarde as crianças que eu alimentava se tornariam bandidos”. Então, ela buscou cursos profissionalizantes e meios para qualificar a infraestrutura da sede.

Mais tarde, um grupo de empresas, que tiveram à frente Gerdau e RBS, obteve recursos suficientes para construir um novo prédio, com 700 metros quadrados de área.

Hoje a Renascer da Esperança emprega 32 funcionários, como cozinheiras, faxineiras, nutricionistas, pedagogas e assistentes sociais. Além de receber os menores, Rozeli abre as portas para as famílias, na tentativa de resgatá-las, auxiliá-las e estimular a presença e a afetividade dos pais na vida das crianças.

Ela também mostra, orgulhosa, uma sala inaugurada em setembro do ano passado, repleta de computadores, onde as crianças têm aulas de informática. Os equipamentos foram fornecidos pelo Ministério Público Estadual por meio do projeto “Alquimia – Transformando caça-níqueis em inclusão social”.

As mudanças

Ao relembrar a parceria do Centro Infantil Renascer da Esperança com o Ministério Público, Rozeli ri e diz: “A verdadeira alquimia foi o que aconteceu comigo”. A menina de rua que conviveu com a fome e a violência, que era “trombadinha”, desafiadora e até desbocada, que falava em gírias e palavrões, se tornou gari e, mesmo tendo enfrentado inúmeras dificuldades, ou justamente por causa disso, quis começar a mudar o mundo auxiliando as crianças da comunidade onde se criou, a Restinga.

Na liderança da ONG, ela ainda batalha para obter os recursos necessários para manutenção da entidade. Num rápido passeio pela sede, atende chamados dos funcionários, das famílias que buscam apoio do Renascer, das crianças. Enquanto relata fatos da vida, chama a atenção de adolescentes, impõe limites, verifica a merenda dos pequenos e olha para o futuro, cheia de projetos. Nos planos, está a vontade de disponibilizar serviço odontológico e ampliar o número de vagas para resgatar mais meninos e meninas das ruas, chegando, inclusive, a outros bairros de Porto Alegre.

“Eu me acho uma vela contra o vento. O vento são as dificuldades. Ele sopra, querendo apagar, mas eu resisto. Às vezes eu apago, mas a minha vontade de ajudar é maior, e aí eu acendo de novo”, diz Rozeli.

Ela estuda na educação para jovens e adultos, e cursa o equivalente à sétima série. As gírias e palavrões foram reduzidos, mas ainda são marca de sua personalidade. Ainda tem dificuldades para escrever, mas garante que devora livros. O mais recente foi De Faxineiro a Procurador da República, de Manoel Pastana. É cheia de expectativas: “Eu ainda vou conseguir formação na carreira jurídica, porque quando se conhece as leis é mais fácil ajudar os outros”. Garante que ainda tem muitos planos para fazer o Centro Infantil Renascer da Esperança causar impacto. E é assim que Rozeli da Silva quer ganhar, um dia, o Prêmio Nobel da Paz.

*Esta matéria está publicada no 1º volume da Revista Ampla, do MP.

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